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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Depressão Crónica ou a Eterna Melancolia



Melancolia, um sentimento muito explorado pelos escritores românticos como o êxtase do amor, pode na verdade, revelar um problema de saúde psicológico que poucos levam a sério.

Segundo a OMS, estima-se que 340 milhões de pessoas em todo o mundo sofram de depressão. A apatia e a falta de energia acompanham os quadros de depressão, já nada parece dar prazer e tudo é feito com muito sacrifício tornando-a uma doença bastante incapacitante.

Há pessoas que vivem assim toda a sua vida, muitas vezes, sem que ninguém à sua volta dê por isso.




Distimia - A Depressão Invisível

Ainda há muita desinformação sobre a depressão, deixando os doentes ainda mais vulneráveis. A maioria das pessoas ainda associa uma depressão a tristeza e lágrimas e o doente depressivo recebe com frequência comentários como “tu não pareces deprimido” de alguém que, propositadamente ou não, ignora o seu profundo sofrimento. A depressão crónica, bem mais comum do que se poderia pensar, é uma grande vítima desta desinformação.

Geralmente, com sintomas menos óbvios, a distimia parece ser uma forma de depressão mais “leve”, onde o doente, com esforço, consegue cumprir com a sua rotina, muitas vezes, ignorando ele mesmo o facto de estar doente.

São situações prolongadas que podem durar anos ou décadas e por isso, os sintomas acabam, na maioria das vezes, por ser vistos pelos outros como traços de personalidade do doente. Nada mais errado. O doente com distimia está em grande sofrimento e muitas vezes, ocorrem episódios de Depressão Major associados.

O “mau humor”, a falta de auto-estima e o pessimismo em relação a tudo são uma constante e o indivíduo com Distimia é incapaz de lutar contra elas, deixando-se arrastar através dos dias com todo esse peso nas costas.

Reconhecer que esses sintomas não são “normais” é o primeiro passo para uma mudança e a ajuda profissional é fundamental para ultrapassar o problema.

sábado, 28 de julho de 2018

Doença de Crohn: quando o nosso corpo não colabora

A Doença de Crohn é uma doença crónica inflamatória do intestino. De causa desconhecida, alguns estudos apontam para que seja uma reacção imunológica à presença de algum factor como uma bactéria ou virus. É uma doença imprevisível, que evolui por surtos e o stress tem um papel preponderante no agravamento de sintomas.


Crohn em números

A doença de Crohn pode afectar qualquer idade, mas o início dos sintomas ocorre geralmente em pacientes jovens (antes dos 30 anos). Apesar de ser considerado que afecta em igual proporção homens e mulheres, alguns estudos indicam uma incidência ligeiramente maior no sexo feminino.

A hereditariedade parece desenvolver um papel importante, as estatísticas apontam para que, em grande parte dos pacientes, haja um familiar próximo com uma doença inflamatória do intestino.

Em Portugal, a incidência da doença parece ter vindo a aumentar nos últimos anos e estima-se que, actualmente, 73 em cada 100 000 habitantes seja portador da doença.


Factores de Risco

Como referido anteriormente, a história familiar é um factor de risco importante na doença de crohn, da mesma forma que a idade e os pacientes entre os 16 e 40 anos devem estar especialmente atentos aos sintomas.

O tabagismo também tem sido referido como um factor de risco para o Crohn, demonstrando que as pessoas com hábitos tabágicos têm maior propensão para o desenvolvimento da doença.

Por fim, o local onde habitamos tem se revelado um facto de risco para as mais variadíssimas doenças e o Crohn não é excepção, verificando-se um maior número de casos em populações residentes nas zonas urbanas de países industrializados.


Sintomas e Sinais de Alarme

Os sintomas associados à doença de Crohn podem ser variadíssimos, consoante a pessoa e as circunstâncias da sua vida, no entanto, há um grupo de sintomas, mais comuns e que devem ser tidos em conta como sinais de alarme.

Os sintomas mais comuns são a diarreia, que pode ocorrer de forma sistemática ou intervalada com momentos de grande obstipação, dor abdominal/cólicas e a perda de peso associada à falta de apetite. 

Outros sintomas que são também frequentementes encontrados nestes pacientes são as dores articulares, lesões na pele sem explicação aparente, lesões na zona perianal, fadiga e enfraquecimento, associadas à dificuldade de absorção dos nutrientes, normalmente realizada pelo intestino.


Complicações associadas

A doença de Crohn é uma condição crónica e sem cura, que deve ser vigiada por um especialista, pois as complicações da falta de cuidado podem ser muito graves ou até fatais.

Pode ocorrer uma oclusão intestinal, tratada através de procedimento cirúrgico. Úlceras e fístulas são comuns em qualquer zona do tubo digestivo (incluindo o aparecimento de aftas na boca).

A osteoropose e anemia podem também acompanhar a doença, que aumenta o risco de cancro do cólon.

O aumento de quadros inflamatórios é notório, especialmente na pele, olhos, articulações, fígado ou vias biliares.

Em última instância, pode ocorrer uma situação de perfuração ou rutura do intestino.



A doença de Crohn não tem cura, no entanto, não deve ser motivo para desesperar. Os tratamentos médicos que existem actualmente providenciam aos doentes um bom controlo dos sintomas e a possibilidade de levar uma vida normal.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O diagnóstico arrasador da Esclerose Múltipla

A esclerose múltipla é uma doença crónica, inflamatória e degenerativa que afecta o Sistema Nervoso Central. De causa desconhecida, surge geralmente em jovens adultos (entre os 20 e os 40 anos) e afecta principalmente as mulheres.

Vários estudos têm sido feitos com o objectivo de determinar as causas e factores de risco da doença, até agora, sem grande sucesso. A EM não é uma doença contagiosa e todos os estudos realizados apontam para que não seja uma doença de transmissão hereditária.

Em Portugal estima-se que afecte 8000 pessoas.




O diagnóstico destrói

Saber que se tem uma doença crónica é sempre um choque. No caso da EM, normalmente, estamos a falar de um cenário de longos meses, ou até anos, de sintomas, visitas recorrentes ao médico, até que um diagnóstico acurado seja feito.

Sendo uma doença altamente incapacitante e sem cura, os doentes, ainda muito jovens, sentem que lhes atiraram à cara a destruição de todos os sonhos de uma vida.



Sintomas

Os sintomas da doença falam por si só, na hora de compreender porque é tão devastadora. Afectam diferentes partes do corpo e com diferentes intensidades.


Fadiga e perda de força muscular - A fadiga é um dos sintomas mais frequentes, ocorre em determinados períodos e pode durar meses. Também é frequente a perda de força muscular nos braços e pernas, muitas vezes, só de um lado do corpo. Esta alteração da força muscular pode ir de apenas uma redução da destreza até à paralisia.


Problemas de visão - A visão pode ser afectada em episódios de visão dupla (bastante frequente nos pacientes com EM) e, por vezes, dá-se uma inflamação do nervo óptico (neurite óptica) que se traduz em visão turva e embaciada, com dor associada ao movimento ocular.


Alterações de sensibilidade e dor - Muitos doentes com EM queixam-se de dormência nos braços e/ou pernas, bem como, formigueiro ou picadas. A dor também pode fazer parte do quotidiano destes doentes. Esta pode ser de vários tipos e intensidades, mas o mais comum é ocorrer nor nervos da face.


Equilíbrio e coordenação - A EM afecta o cerebelo, zona do cérebro responsável pelo equilíbrio, pelo que os doentes podem encontrar dificuldades em caminhar ou em utilizar correctamente objectos pequenos que exijam maior capacidade de motricidade fina.


Alterações dos esfíncteres e problemas sexuais - Estes são os sintomas menos falados da EM, talvez por serem um assunto mais delicado para a maioria das pessoas. A nível de esfíncteres poderá haver, especialmente em fases mais avançadas uma maior dificuldade de controlo dos mesmos, embora o mais comum seja dificuldade em esvaziar por completo a bexiga.

A nível sexual podemos encontrar problemas de várias ordens, de acordo com o género do paciente. Os homens poderão ter dificuldade em manter a erecção, enquanto as mulheres queixam-se mais frequentemente de perda de sensibilidade ou dor na penetração.


Alterações cognitivas - Dificuldades de concentração e raciocínio podem ser encontradas nos pacientes com EM, bem como, por vezes, algumas dificuldades com a memória recente.


Alterações do Humor - É muito frequente encontrar nestas pessoas quadros de depressão, normalmente como reacção psicológica à doença.



Para maior informação e ajuda…

O diagnóstico de esclerose múltipla, especialmente em estágios tão jovens da vida é devastador, mas não tem de ser o fim. Em Portugal, existem duas instituições que podem ajudá-lo a enfrentar as dificuldades e encontrar estratégias para manter a sua qualidade de vida:



sábado, 14 de julho de 2018

Artrite Reumatóide - mobilidade dolorosa

A artrite reumatóide é uma doença reumática inflamatória, auto-imune e de causa desconhecida, sendo a forma mais comum de artrite. Actua maioritariamente sobre as articulações (especialmente os punhos e os dedos) e pode, por isso, ser extremamente incapacitante.



Os principais sintomas desta doença dão a dor, muito frequente no período nocturno, interrompendo o sono, edema ou inchaço, rigidez, especialmente pela manhã e perda da função das articulações. Apesar disso, muitos doentes revelam formas mais atípicas das doenças, havendo alguma variação nos sintomas demonstrados (por exemplo, febre baixa, cansaço, muitas vezes com uma anemia associada), bem como na sua intensidade.


Estatísticas

A Artrite Reumatóide está longe de ser uma doença rara e pode ocorrer em qualquer idade, embora seja mais frequentemente encontrada após os 45 anos. 

As estatísticas mais recentes apontam para que a prevalência da doença em Portugal seja de cerca de 1% da população e é indiscutivelmente mais frequente no sexo feminino (cerca de 75% dos doentes são mulheres).


Complicações

A artrite reumatóide é uma doença complexa e com elevado nível de morbilidade, visto que pode limitar os mais básicos gestos diários, como abrir uma porta ou calçar um par de sapatos.

No entanto, há outras complicações que podem advir desta inflamação e que devemos ter em conta. São elas a pleurite e a pericardite, quando a inflamação atinge o revestimento dos pulmões e do coração, respectivamente.

É importante lembrar que, quanto mais precoce for o tratamento, mais se retardará a destruição articular.


Convivendo com a Artrite Reumatóide…

Sendo uma doença altamente incapacitante, é importante que cuide de si todos os dias e apesar de não ser fácil, mantenha um pensamento positivo, que o ajude a lidar com os momentos difíceis, para evitar o risto de desenvolver estados depressivos e de ansiedade. Aqui ficam algumas dicas que o podem ajudar.

Oiça apenas o seu médico - Diz o povo que de médico e de louco, todos temos um pouco, mas evite seguir conselhos que não sejam do seu médico reumatologista. Apesar das boas intenções, muitas vezes, os palpites alheios provocam ansiedades e expectativas desnecessárias e não melhoram em nada a condição física do doente.

Não ignore os sinais do seu corpo - É muito difícil ver aquela pilha de roupa a acumular-se e não ir passá-la a ferro? Vai ter de aprender. Preste atenção aos sinais do seu corpo, se não dá para fazer agora, faz depois.

Carpe Diem - Planos não cumpridos geram stress e ansiedade. Evite fazer grandes planos, viva um dia de cada vez.

Visite a ANDAR - Conviver com pessoas que enfrentam os mesmos problemas que nós, não só é bom psicologicamente, como muitas vezes nos ajuda a encontrar novos processos e mecanismos nos quais nunca tinhamos pensado. A Associação Nacional de Doentes com Artrite Reumatóide pode ser uma boa ajuda para si.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Colesterol - desmistificar para vencer


Todos os dias ouvimos falar em colesterol, é algo tão comum, que se torna normal. Estima-se que aproximadamente 1/4 da população portuguesa apresente níveis de colesterol de risco muito elevado, o que significa, maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares.

Apesar dos riscos, para a maioria das pessoas, colesterol é apenas uma palavra. Como discutido anteriormente o conhecimento do doente é fundamental para o sucesso do tratamento, por isso, vamos desmistificar.




O que é o Colesterol e quais os problemas associados?

O Colesterol é um tipo de gordura presente nas nossas células e que a níveis equilibrados contribui para o bem-estar e correcto funcionamento do nosso organismo. Para além disso, é fundamental para a produção de Vitamina D, que facilita a absorção do cálcio e ajuda à regulação do humor e dos ácidos biliares que ajudam a uma boa digestão. Incrível, não é? 

Entao, quando começa o problema?

O problema do colesterol começa com o desiquilíbrio e a subida daquilo a que chamamos o mau colesterol, que vai provocar um aumento de gordura nos vasos sanguíneos, que com o passar do tempo, irá dificultar a passagem do sangue e conduzir a problemas vasculares, com consequências graves.



Tipos de Colesterol

Apesar de se falar muito neste problema, o mesmo não é algo assim tão óbvio e linear, há diferentes tipos de colesterol e é importante que o doente tenha noção disso mesmo.

Comecemos então por falar do que costumamos chamar bom colesterol, isto é, Coleterol HDL. Neste caso, estamos a falar de substâncias que actuam como agentes de limpeza do organismo, conduzindo alguma da gordura depositada nos tecidos e nos vasos para o fígado, onde a mesma será eliminada. Recomenda-se que os seus valores estejam acima de 40 mg/dl, e para tal, o exercício físico e o controlo do peso é fundamental.

Mas como vimos, nem tudo é bom e temos o Colesterol LDL, também conhecido como mau colesterol e que é, geralmente a principal fonte de problemas no mundo moderno. Para uma vida saudável, os valores LDL devem estar abaixo dos 130mg/dl. Quando os níveis começam a subir, verifica-se a deposição de gordura anteriormente falada. Com o tempo, esta gordura formará placas que dificultam a passagem natural do sangue, podendo conduzir a Ataques Cardíacos e Acidentes Vasculares Cerebrais. Uma dieta com pouco açúcar, pouca gordura e exercício físico pelo menos 3 vezes por semana, contribuem para o controlo destes valores e suas consequências para a saúde.

Há ainda o Colesterol VLDL, menos conhecido da maioria das pessoas, mas igualmente importante. Este tem como principal função o transporte dos triglicerídeos e em valores elevados, aumenta o risco de doenças cardíacas. Os seus valores ideais situam-se nos 30mg/dl e nunca devem ultrapassar os 40mg/dl.

Por fim, devemos ainda falar do Colesterol Total, ou seja, a soma de todos os anteriores, cujos altos valores, eleva significativamente o risco de doenças cardiovasculares. Neste caso, os valores não devem ultrapassar os 190mg/dl. Quando o médico nos diz que temos o Colesterol demasiado alto refere-se, na maioria dos casos, ao valor do colesterol total. A situação pode ser ligeiramente amenizada se os valores LDL se encontrarem dentro da normalidade, não obstante, o paciente deverá reduzir a ingestão de alimentos ricos em gordura.


Aterosclerose

Como mencionado anteriormente, o aumento do colesterol (total e LDL) vai provocar uma deposição de gordura na parede dos vasos sanguíneos que vai dar início a um processo inflamatório: aterosclerose.

A aterosclerose provoca uma ridigez dos vasos sanguíneos, dificultando a circulação e obrigando a um esforço extra do coração para que a mesma se realize correctamente. Este problema está, assim, na origem de vários problemas cardiovasculares, como a hipertensão, insuficiência cardíaca, angina de peito, enfarde do miocárdio, acidente vascular cerebral, entre outros.

Estas doenças são a principal causa de morte em todo o mundo ocidental e estima-se que no nosso país, 2/3 da população adulta tenha o colesterol elevado.


O que fazer?

As consequências, como vimos, são significativamente graves e devemos ter isso em conta na hora de fazer um controlo adequado do nosso colesterol, através de análises sanguíneas regulares e seguindo sempre as indicações do médico. É importante que se mantenha a par dos seus valores e cuide dos mais novos, sim, mesmo abaixo dos 20 anos, especialmente se tiverem antecedentes familiares, excesso de peso, ou uma vida pouco activa, devem fazer análises ao colesterol quando forem fazer as análises regulares, afinal, não custa nada. 

Se por um lado, existem factores difíceis de controlar, como a hereditariedade ou o aumento da idade, muitos outros podem ser controláveis com a adopção de um estilo de vida mais activo e saudável (deixar hábitos tabágicos, por exemplo) e uma alimentação adequada.

Uma dieta equilibrada e pobre em gorduras é uma ajuda fundamental no controlo do colesterol. O consumo de álcool deve ser reduzido e o controlo do peso é indispensável. Uma boa rotina de sono, com 7 a 8 horas diárias e a prática de exercício físico regular, complementam o esforço em direcção a uma vida mais saudável e de qualidade.


Casos de Risco

Os antecedentes familiares são um dos principais factores a ter em conta para o risco de desenvolver colesterol elevador, mas não é o único. E se, neste caso, não podemos fazer nada, na maioria dos outros, o nosso estilo de vida tem uma palavra a dizer.

Assim, consideram-se dentro do grupo de risco todos os fumadores, diabéticos, hipertensos ou doentes vasculares. Estes grupos devem ter especial cuidado e vigiar frequentemente os seus níveis de colesterol. Se ainda não o tem, seja qual for o seu factor de risco, a prevenção activa (dieta e exercício físico) ajuda a reduzir os riscos.

domingo, 1 de outubro de 2017

Aceitar a Doença Crónica

Os avanços cada vez maiores da medicina parecem trazer para o nosso quotidiano mais e mais diagnósticos de doenças crónicas. O conhecimento é uma benção para a qualidade de vida, mas para muitos doentes torna-se um pesadelo.

Nem toda a gente está preparada para o diagnóstico quando ele chega e, na maioria dos casos, é uma sensação devastadora. “Para o resto da vida” é um tempo muito longo e os medicamentos e alterações diárias nem sempre são bem aceites.

Há problemas legais que podem tornar-se um entrave ao tratamento, como a dificuldade em conseguir isenção das taxas moderadoras, o acesso limitado a especialistas ou até mesmo, a capacidade de transporte até à consulta, mas por detrás dos números, estão seres humanos, perdidos e confusos, que precisam desesperadamente de aprender como aceitar e lidar com esse estado que é a doença.

Em Portugal o acompanhamento ao doente é maioritamente efectuado através das Unidades de Saúde Familiares e acompanhamento de especialistas a nível hospitalar. No entanto, quando falamos de apoio à gestão do regime terapêutico, a resposta do SNS é francamente insuficiente, ficando a família com grande parte do papel que pertende ao profissional de saúde.


Estatísticas

As estatísticas referentes à Doença Crónica em Portugal não são de todo favoráveis. Estima-se que 40 a 45% das doenças sinalizadas no nosso país, sejam doenças crónicas incapacitantes e segundo o Plano Nacional de Saúde, este número tem tendência para aumentar de forma exponencial.

Em 2005, 86% das mortes ocorridas em território europeu foram consequência de doença crónica (sendo a Diabetes detentora do número mais significativo), segundo dados da OMS e prevê-se que este número aumente. Da mesma forma, a Organização Mundial de Saúde acredita que a adopção de um estilo de vida mais saudável, que inclua exercício físico, melhores hábitos alimentares e abandono de hábitos tabágicos poderia baixar estes números em cerca de 80%. 

O primeiro profissional de saúde a lidar com o problema é o médico de família, que lida não só com a doença em si, mas que encontra em cerca de 80% dos casos, queixas do foro psicossocial, para as quais nem sempre tem capacidade de resposta.

A doença crónica é assim de uma magnitude que não pode ser ignorada, pelos problemas para a pessoa individual (doente e família) e ainda pelo impacto económico que tem em todo o mundo. A utilização de uma estratégia de prevenção, que inclua medidas dirigidas especificamente aos diferentes grupos populacionais, aumentando assim a sua taxa de potencial sucesso, é o conselho da OMS para inverter esta tendência.




A doença Crónica e a Família

A Organização Mundial de Saúde define as doenças crónicas como “Doenças que têm uma ou mais das seguintes características: são permanentes, produzem incapacidade/deficiências residuais, são causadas por alterações patológicas irreversíveis, exigem uma formação especial do doente para a reabilitação, ou podem exigir longos períodos de supervisão, observação ou cuidados.”

No entanto, por detrás das definições estão seres humanos e um dos factores que mais afecta o doente e a sua família é a percepção de vulnerabilidade. De um momento para o outro, estas pessoas vêem-se perante um novo cenário, desconhecido e muitas vezes assustador e durante algum tempo, tudo gira em volta da doença, seja numa tentativa de controlar e tratar, seja através dos esforços feitos para ignorá-la.



Eu não estou doente, eu sou doente

A percepção que o doente, bem como a sua família tem do problema é fundamental para o prognóstico. É importante que a pessoa aceite e compreenda o que se passa com ela, que lhe dê o significado que realmente tem (sem ignorar o problema, nem torná-lo o centro da sua vida) e que tenha suporte da família e amigos próximos para que possa lidar com a doença da melhor forma possível.



Aumento da Esperança Média de Vida ou Explosão de doenças crónicas?

O aumento da esperança média de vida parece ter uma correlação directa com o aumento das doenças crónicas, mas não só. A doença crónica, como bem sabemos, atinge pessoas de variadas idades e estima-se que esteja mais relacionada com o estilo de vida stressante e sedentário, tão comum nas sociedades modernas.

Hoje em dia, uma pessoa com mais de 65 anos usa, em média, 5 medicamentos em simultâneo para controlo de condições crónicas de saúde. É sabido que quão mais complexo fôr o tratamento e o maior número de medicamentos, menor a adesão aos mesmos por parte dos doentes.




Conhecer, compreender, aceitar

Nem todas as doenças crónicas são terrivelmente incapacitantes, mas a noção de nunca mais, de anormalidade persegue os doentes que tentam desesperadamente encontrar um novo caminho ou direcção, do qual a doença vai sempre fazer parte. De acordo com uma tese de doutoramento da Universidade Católica do Porto, após o diagnóstico da doença crónica, começam a emegir os sentimentos de medo e falta de esperança. 

As tarefas rotineiras passam a ser grandes dificuldades e o percurso normal de vida (estudos, trabalho) é alterado, muitas vezes, radicalmente.

A forma como é vivido o momento de transição entre a saúde e a doença é fundamental para o desenvolvimento da mesma e prognósticos sobre o futuro. É preciso investir em profissionais, que para além do conhecimento necessário para apoiar o doente, demonstrem sensibilidade para compreender a pessoa que têm à sua frente e a sua capacidade de resiliência, bem como as suas vulnerabilidades.

O suporte familiar e o contexto sociocultural em que o paciente está inserido é de vital importância para o sucesso ou insucesso do processo. A ausência de suporte familiar, especialmente se associada a um contexto de pobreza, é um dos maiores factores de vulnerabilidade do doente crónico. Pelo contrário, uma família estruturante é, à partida, um dos melhores prognósticos que podemos encontrar.

Os profissionais de saúde e o doente que acompanham têm expectativas e objectivos diferentes, pois para o doente, o controlo da doença é apenas uma parte de tudo o que este tem de enfrentar. Ele precisa fazê-lo, enquanto segue com o seu plano de vida, o que muitas vezes, na ânsia de melhorar a parte clínica é desvalorizado pelos profissionais, tornando-se um forte entrave à aceitação da doença por parte do doente e à vivência desta transição de forma mais tranquila.


Desmistificar crenças

Muito do trabalho a realizar pelos profissionais de saúde está relacionado com a desmistificação das crenças associadas às doenças crónicas, crenças essas, que prejudicam a aceitação e o tratamento, especialmente na fase de transição.

Após um diagnóstico de doença crónica, os doentes passam por uma fase de transição, onde interiorizam a sua nova realidade e aprendem a viver com a doença e as suas limitações, bem como os novos cuidados impostos pela mesma. Esta transição é tanto mais fácil quanto menor o número de crenças desfavoráveis associadas ao problema pelo paciente e sua família.

O medo, a discriminação e a gravidade percebida da doença estão directamente relacionados, tanto com as crenças que o sujeito possa ter, como com a facilidade ou dificuldade com que esta transição é vivida.


Gerir a doença, gerir a própria vida

Todo o profissional de saúde sabe que apesar de todos os esforços algumas pessoas não tomarão o devido cuidado consigo mesmas e não seguirão os seus conselhos. Isto levanta algumas questões de abordagem ao paciente, mas, em primeira análise, o que faz com que algumas pessoas não cuidem de si mesmas?

A noção de auto-cuidado significa coisas diferentes para pessoas diferentes e difere consoante a capacidade de adaptação e resiliência, bem como as expectativas para o futuro do sujeito em causa.

A informação é fundamental para que a pessoa cuide da sua saúde, tendo em conta o benefício a esse comportamento associado. A confiança na sua capacidade é também um factor determinante, o paciente precisa acreditar que é capaz de cuidar de si mesmo e que daí tirará algum benefício.


Aceitarmo-nos a nós e aos outros

É urgente protecção jurídica. O doente crónico precisa ser reconhecido e apoiado. O acesso a medicamentos e terapias deve ser uma prioridade, mas não esqueçamos outros tipo de materiais, que não sendo considerados medicação são muitas vezes negligenciados, mas são necessários para uma vida digna e independente de muitos dos nossos doentes.

Os profissionais de saúde são fundamentais na fase de transição e aceitação da doença. É preciso que estes tenham a consciência e a sensibilidade para compreender que para o doente o foco está na vivência da nossa condição, enquanto tentam manter a continuidade da vida que tinham antes. Ser capaz de controlar a doença e tratar de si mesmo, aplicar o regime terâpeutico adequado e muitas vezes complexo, principal preocupação do profissional de saúde, tem de ser incorporado nas vivências e expectativas do paciente, ajudando-o a lidar com esta nova vida.

Desta forma, o Plano Nacional de Saúde adopta uma postura de desenvolvimento de competências no doente, focado na informação ao mesmo, que passa não só pela informação prática relacionada com a doença e terapêutica, mas também pelo conhecimento dos seus direitos, possibilidade de escolha, procedimento de segurança e ainda, como e onde deve fazer as suas reclamações se sentir necessidade disso.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

DOR CRÓNICA



A dor crónica é uma dor persistente ou recorrente, sem motivo físico aparente e que apresenta uma duração de pelo menos 6 meses (no entanto, o paciente pode demonstrar características de dor crónica antes disso). Muitas vezes, é precidida por uma lesão, porém, após a cura total da mesma, a dor mantém-se, no entanto, a mesma pode surgir sem qualquer antecedente ou motivo aparente.


Estatísticas

A dor crónica atinge cerca de 19% dos adultos na Europa e estes números parecem estar a aumentar. Em Portugal, estima-se que 36% da população adulta sofra da doença.

Metade destas pessoas dizem sofrer de dor constante e dois terços têm graves dificuldades em dormir.

Um estudo realizado em Portugal (pelo Serviço de Bioestatística e Informática Médica, em conjunto com o CINTESIS) concluiu que incidência da doença era mais elevada nas mulheres e na população mais idosa.


Complicações físicas

A dor surge no nosso organismo como consequência de um problema de saúde, que pode ir de infecção, queimadura, derrame, etc e tem, nesse contexto, um efeito benéfico, pois serve de alerta para que saibamos que algo não está bem. Contudo, no caso da dor crónica, esta surge sem qualquer motivo e tem um impacto grave na vida do doente.

A dor crónica está associada a problemas do foro imunitário, este problema está associado a uma baixa imunidade e aumento da susceptibilidade às infecções.

A dor, muitas vezes constante, é também responsável por uma diminuição da mobilidade do paciente, com todas as consequências a ela associadas.


Complicações emocionais

A sensação constante de dor e a diminuição da qualidade de vida do paciente traz consequências do foro emocional que podem desencadear situações muito graves. 

São frequentes as insónias devido à dor e patologias do foro da ansiedade e depressão (1 em cada 5 doentes com dor crónica foi diagnosticado com depressão) que, em última instância poderão desenvolver no paciente ideação suicída.


Complicação Sociais

Uma grande parte destas pessoas (cerca de 60%) encontra-se incapacitado para trabalhar fora de sua casa, o que traz consequências sociais e económicas para o paciente e a sua família. 

Apesar das dificuldades, muitos são os pacientes que tentam manter o seu emprego, no entanto, as estatísticas mostram que 1 em cada 5 doentes perderam o seu trabalho em consequência da doença.



Nos quadros de dor crónica, a dor não é apenas um sintoma de algo mais, mas sim uma doença em si mesma, que terá repercussões significativas na vida do paciente, sendo fonte de grande sofrimento e elevados custos sócio-económicos.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Direitos do Doente Crónico em Portugal


No âmbito da série de posts sobre a Diabetes e outros já preparados sobre outras condições crónicas, como artrite, lúpus ou fibromialgia, resolvi informar-me um pouco mais sobre os direitos do paciente crónico em Portugal. Foi com grande surpresa e desilusão que descobri o quão pouco protegido e apoiado está, um indivíduo que padeça de uma doença para a vida.

Estima-se que, em Portugal, milhares de pessoas sofram de doenças crónicas com impacto a vários níveis das suas vidas, no entanto, pouco ou nada parece ter sido feito para apoiá-los na sua luta diária. 

Em primeiro lugar, o doente só verá reconhecida a sua situação após adquirir um atestado médico de incapacidade multiusos, o qual deve ser solicitado pelo próprio, cuja facilidade para tal, desconheço. No mesmo, deverá conter o grau de incapacidade ou deficiência da pessoa, de acordo com a Tabela Nacional de Incapacidades, que de acordo com as informações que recolhi é especificamente destinada a doenças profissionais e acidentes de trabalho e viação, não salvaguardando os direitos do doente crónico que vê aplicados critérios que não são adequados à sua condição específica.

Os documentos sobre o tema são dispersos e muito incompletos, não há definições claras sobre a doença crónica e / ou degenerativa altamente incapacitante e a avaliação da mesma torna-se então muito subjectiva, consoante a instituição responsável pela sua análise.



Direitos Fundamentais do Doente Crónico

Após várias horas de pesquisa, descobri apenas 4 direitos do paciente crónico, os quais não tenho a certeza que sejam rigorosamente aplicados a todos os casos com igualdade. 


1. Isenção

O doente crónico tem direito a isenção total sempre que recorrer ao Serviço Nacional de Saúde. No entanto, sabemos que este direito inclui algumas “excepções”, justificadas pela capacidade financeira do doente.


2. Benefícios Fiscais

Quanto a este ponto, as informações que encontrei não foram claras o suficiente, pelo que me limito a informar desta situação e a aconselhar todos os pacientes crónicos a informarem-se junto da Direcção Geral de Impostos.


3. Direito a Médico ao Domicílio

A partir do momento em que o problema se torne incapacitante para a deslocação ao centro de saúde onde está inscrito, o paciente crónico tem o direito a solicitar a deslocação do médico a sua casa, sempre que esta se justifique.


4. Pagamentos das Deslocações de Tratamento

Este pagamento é efectuado segundo alguns critérios, para os quais se deve informar junto da Segurança Social. Preenchendo os requisitos necessários, o pagamento é efectuado mediante a apresentação de todos os recibos e papelada necessária. 




FIADC - Federação de Instituições de Apoio a Doentes Crónicos

Dada a pouca informação disponível, muitas vezes confusa e descontextualizada, aconselho o contacto desta instituição, que visa ajudar os doentes crónicos nas várias áreas da sua vida.