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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

O Terror do Fogo: o que os incêndios de verão fazem à nossa saúde mental?

 


Os incêndios de verão em Portugal já são uma espécie de dado adquirido, uma inevitabilidade e a maioria de nós não acha que possam ser totalmente evitados.

Cabe à população e equipas de emergência controlar o fogo e no final do verão, fazemos as contas aos prejuízos e preparamos lindos planos de contingência para o ano seguinte, que não parecem dar em nada.

No entanto, o fogo é mais do que centenas de bombeiros exaustos e propriedades perdidas. Há toda uma componente psicológica altamente traumática para quem vê as chamas aproximarem-se.

Pedrogão Grande - a mancha negra na história

A repetição frequente de um acontecimento trágico dá-lhe uma certa aura de normalidade e nem sempre lhe damos o devido valor. Muitos de nós, nunca pensaram muito no assunto antes da tragédia de 2017 em Pedrógão Grande.

Mais de 250 feridos e 66 mortos eram números inesperados, nunca vistos e teve um impacto a nível nacional. Pela primeira vez, as pessoas perceberam a necessidade do apoio psicológico às populações. Ainda assim, o impacto dos chamados “incêndios de verão” na saúde mental é enorme, mesmo quando não atinge estas dimensões infernais.

A dor da população

As imagens dos idosos a chorar desesperados ou a ser carregados em braços pelos bombeiros são terríveis e de uma crueldade assustadora. No entanto, os efeitos do fogo são transversais a todas as idades.

A nossa casa é o nosso porto seguro, tem as nossas coisas que por valor financeiro ou emocional são extremamente importantes para nós - muitas vezes só percebemos isso após as perdermos - e o sentimento de medo pela família e amigos, bem como a aterradora noção de ter zero controlo sobre os acontecimentos é altamente traumática em qualquer idade.

Ainda assim, é de referir que para os mais velhos, o impacto das perdas pode ser vivido de forma mais traumática, pois sentem que não terão tempo para recuperar. Não voltarão a construir a sua casa, ou a recuperar os seus terrenos. A solidão já é grande e muitas vezes, perder uma pessoa significa que não têm mais ninguém. Há uma fragilidade associada à idade que não pode ser ignorada no apoio à população. Estas pessoas sentem que já não há recomeço possível.

O sofrimento dos bombeiros

Os bombeiros são vistos como os grandes heróis que abdicam do verão para combater incêndios e ajudar os outros. Maioria da população demonstra grande amor e empatia por eles, mas, na verdade, uma parte essencial é esquecida: os heróis também sofrem.

O cansaço físico e os perigos para a saúde são óbvios, mas a saúde mental é uma espécie de parente pobre no nosso SNS e isso estende-se aos nossos bombeiros.

Um estudo da Universidade de Coimbra concluiu que 82% dos bombeiros participantes no estudo já estiveram expostos a pelo menos 20 situações potenciadoras de trauma. O trauma psicológico é um grande incapacitante do funcionamento normal e capacidade de tomada de decisão em situação de perigo. 

Os nossos bombeiros são duplamente penalizados e correm riscos em dobro pela ausência de apoio ao nível da saúde mental.

O que foi feito e o que devia ser feito

Há equipas comunitárias de saúde mental que podem garantir o apoio adequado aos indivíduos mais vulneráveis, no entanto, e apesar dos mais variados esforços, elas não chegam a todos. O mesmo ocorre para o núcleo local de resposta a catástrofes, formado por um médico, um enfermeiro, um psicólogo e um assistente social, o que em casos de situações graves e com muitas vítimas é claramente insuficiente.

Uma Comissão formada para o efeito determinou os quatro vetores principais em que o seu trabalho deve assentar:

1. Promover e assegurar a acessibilidade aos cuidados de saúde por parte das populações, em tempo adequado, valorizando as soluções de proximidade, coordenando as intervenções, quer as de natureza preventiva, quer as de ação terapêutica, através da dinamização das equipas comunitárias, multidisciplinares, envolvendo os diversos profissionais de saúde mental, de modo a integrar respostas concertadas junto da população em risco;

Situação atual: Apesar dos melhores esforços de um sem números de profissionais, continua a haver queixas de que os cuidados são poucos e a não chegam atempadamente a quem mais precisa.

2. Assegurar informação atualizada junto da comunicação social sobre as ações empreendidas, de modo a obter a sua colaboração na necessária informação à comunidade e facilitando a articulação das ações, designadamente com as entidades locais, autarquias e instituições sociais e solidárias, de modo a potenciar sinergias nas intervenções;

Situação atual: As pessoas estão cada vez mais informadas sobre a importância da saúde mental, mas os recursos ainda são demasiado escassos e a população mais idosa, a mais afetada devido à grande quantidade de idosos nas aldeias mais afetadas, ainda não tem informação suficiente nem sabe onde ou como pode pedir ajuda.

3. Caraterizar a população em risco, tendo em conta as perdas sofridas, a sintomatologia evidenciada, os recursos individuais e do sistema familiar em causa e os antecedentes psicopatológicos revelados, com especial atenção às situações de risco de suicídio;

Situação atual: O levantamento de dados é provavelmente a fase mais avançada até agora, no entanto, não tenho dados suficientes que garantam que o rastreamento das situações mais perigosas esteja, ou não, a ser realizado efetivamente. 

4. Produzir recomendações para a estruturação de respostas na área da saúde mental, em situações similares futuras de calamidade, com esta dimensão e impacto, a nível local, regional ou nacional, equacionando modelos de intervenção na comunidade, em articulação com o poder local, com os serviços da segurança social, com os diferentes cuidados de saúde, bombeiros, comunicação social, associações particulares de apoio, e outras estruturas relevantes da comunidade.

Situação atual: Foi posto em prática, mas com o passar do tempo e a memória coletiva a começar a esquecer, muitas das ideias são atiradas para o fundo de uma gaveta e totalmente esquecidas. 

(A “situação atual” é uma leitura pessoal, conforme os dados, muitas vezes escassos, que possuo.)

Casa roubada, trancas na porta

Após uma grande tragédia as pessoas ficam mais alerta e Pedrógão Grande não foi exceção. O país ficou mais ciente das suas fragilidades e do real perigo dos incêndios rurais.

Muito foi dito, nem tanto foi feito, após os trágicos acontecimentos de 2017. Houve melhorias sem dúvida, mas é curto, é pouco, é insuficiente. A saúde mental tem de ser uma prioridade, não são só as queimaduras que nos ferem. 



terça-feira, 17 de maio de 2022

O que a sensação de perigo eminente faz ao cérebro de uma criança


 


O que sente quando a sua segurança está a ser ameaçada? E se fosse assim todos os dias?

Com a guerra na Ucrânia no top dos assuntos da actualidade, devemos todos parar para pensar nisto. No nosso dia a dia, sentimo-nos seguros. Podemos passar segurança aos nossos filhos, podemos dizer-lhes que vai ficar tudo bem. E se não pudessemos? 

Mudança drástica de vida

A sensação de se estar em constante perigo é desgastante e destrói-nos lentamente. No caso das crianças pode provocar enormes retrocessos no seu desenvolvimento, que poderão nunca ser recuperados. É claro que não é só as crianças de países em guerra que podem sentir-se constantemente em perigo. Também ocorre em situações de violência doméstica, por exemplo, e com resultados muito semelhantes. Mas, por agora, foquemo-nos nas situações de conflito armado. 

As sirenes tocam toda a noite, a qualquer momento, impedindo um sono tranquilo. Mesmo os bebés que não compreendem o que se passa, não conseguem dormir com o barulho e agitação. 

Têm de fugir de suas casas. O seu porto seguro, o lugar onde deveriam sentir-se em paz, já não é seguro de todo. Para além da insegurança, todas as crianças precisam de manter a noção de pertença, a um grupo, a um espaço… com o potencial desaparecimento da sua casa, essa sensação de pertença desaparece. A vida pode nunca mais voltar ao que elas entendem como normal. Tudo o que eles conhecem agora é o medo, a fome, a sede, a solidão e a incerteza.

Onde está o pai?

Uma das mudanças mais drásticas e desastrosas que a guerra traz é a morte de pessoas próximas, pessoas que as crianças conhecem, amam, pessoas que são uma referência. Mas a morte não é a única que arranca estas pessoas às crianças.

Há muitas circunstâncias que podem provocar um afastamento da criança da família. A mais comum é o facto de terem de fugir com as mães e os pais terem de ficar para trás. Porque o pai fica naquele sítio perigoso? 

O desaparecimento, mesmo que momentâneo de um dos progenitores é um dos eventos mais traumáticos da vida de uma criança. E eles sabem que essa pessoa está em perigo. 

Stress permanente

O stress é uma condição em que o indivíduo vivencia um desafio que está além das suas capacidades de enfrentamento. Esta poderia ser também uma das descrições da guerra.

O stress é especialmente prejudicial nos primeiros anos de vida. A maleabilidade do cérebro nesta fase da vida torna-o particularmente sensível às influências ambientais, provocando uma alteração significativa da organização cerebral da criança.

O stress permanente provoca alterações físicas no cérebro da criança - pode levar a uma redução do volume cerebral. Provoca uma desregulação do sistema neuroendócrino e disfunção límbica, que se pode traduzir por depressão, ansiedade, e problemas de memória (quando afecta o hipocampo). Pode afectar ainda o comportamento e capacidade de tomada de decisão, bem como dificuldade em controlar os impulsos.

As relações

O ser humano é um ser social e precisa relacionar-se com os outros, certo? Sim, mas para se tornar esse ser sociável e especial, a criança precisa de ter relacionamentos saudáveis desde tenra idade. Caso contrário, terá sérias dificuldades em relacionar-se com os demais.

Se a criança se sente em perigo constante, se não sabe de onde esse perigo pode vir, vai ter muito mais dificuldade em confiar e relacionar-se com os outros. Esta sensação de desconfiança vai manter-se ao longo da vida, criando um adulto que tem dificuldade em confiar nos outros, em relacionar-se e opta por uma atitude muito defensiva em relação a todas as pessoas e situações.

Muitas vezes esperamos ver as crianças com reações semelhantes às do adulto com distúrbio de pós-stress traumático, no entanto, os nossos pequenos funcionam de forma bem diferente de nós. A ideia de que as crianças são muito mais resilientes do que os adultos tem algum fundo de verdade, mas também vem do facto das suas reações serem diferentes das nossas.

Muitas vezes, a criança parece que ultrapassou toda a situação, que não se apercebe de nada, ou que não entende. Assim que é colocada num ambiente seguro, segue a sua vida com normalidade. Ultrapassou. O problema é que as lembranças ficam lá, a sensação de medo e de susceptibilidade fica lá, ainda que não saibam verbalizá-las. Os danos já estão feitos e podem emergir em qualquer altura, às vezes, dezenas de anos mais tarde.

Que adultos serão estes?

Está mais do que comprovado que a exposição a violência constante, em todas as suas formas (mesmo violência verbal) provoca alterações cerebrais aos nível da amígdala, principal responsável pela regulação das nossas emoções.

Algo que tentamos (ou devíamos tentar) ensinar aos nossos filhos desde cedo é a tentar regular as suas emoções - note-se que regular é muito diferente de evitar ou constranger. É um dos sinais de maturidade mais óbvio. Então que adultos serão estes? Conseguirão dar a volta à situação um dia?

A resposta é incerta, mas é imporvável. As marcas ficam para sempre. As crianças, ao contrário da crença popular, não esquecem nunca. Mesmo para as mais pequenas, fica algo, lá no fundo da sua mente, que mesmo não conseguindo expressá-lo as torna ansiosas, medrosas. Serão provavelmente adultos que nunca se sentirão totalmente em paz e nem saberão porquê.

A sensação de perigo está sempre ao virar da esquina

Todos nós já passamos por situações em que nos sentimos em perigo, mas felizmente, poucos sabemos o que é ter essa sensação constantemente. Quando somos crianças somos muito mais sensíveis aos acontecimentos e as marcas mais difíceis de apagar.

No entanto, uma experiência traumática não tem de ser o fim. A presença de cuidadores sensíveis, que correspondam às necessidades de afecto e compreensão da criança são fundamentais para a ajudar a lidar com o stress e evitar danos irreversíveis no seu desenvolvimento.