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quarta-feira, 11 de maio de 2022

Cuidar do idoso, o derradeiro desafio

 



Numa população cada vez mais envelhecida, faz cada vez mais sentido falar sobre isto - cuidar do idoso. Este cuidado não é simplesmente dar-lhe comer, ou ajudá-lo a vestir. Vai muito para além disso. 

Em Portugal, a maioria dos cuidadores são eles próprios idosos, com todos os problemas que isso acarreta. Em pouco tempo, o cuidador precisará ele próprio de cuidados  e a sociedade não esta disponível para os dar. As instituições não chegam para todos os pedidos.

O que é cuidar?

Os cuidados com o idoso vão muito além de dar a medicação na hora certa, ou fazer a higiene. Ser cuidador exige empatia, diálogo e amor. A pessoa que precisa de cuidados precisa de muito mais do que o cuidado físico básico.

É muito frequente ver os cuidadores a tratarem o idoso de forma infantilizada. Não há nada mais degradante do que isso. Não é uma criança, é um adulto a precisar de ajuda. Infantilizar um idoso vai destruir a sua auto-estima e contribuir para problemas do foro emocional, nomeadamente, depressão. O seu familiar idoso tem opiniões, ideias e vontades. 

Se a pessoa estiver lúcida, não há razão para não a deixar tomar as suas próprias decisões. Se a lucidez já começa a faltar, ou percebemos que é uma decisão que coloca a pessoa em risco, então devemos conversar, argumentar e dialogar. Evite dizer “é assim porque eu quero” ou “sou eu que mando”. Na dúvida, coloque-se no lugar da pessoa - o que gostaria que lhe dissessem ou fizessem naquela situação?

Saúde mental - de ambos

Não raras vezes, estamos tão preocupados com a saúde física, que nos esquecemos da saúde mental - vital para o nosso bem-estar e bom funcionamento diário.

No caso do cuidador, tem um trabalho duplo a nível de saúde mental, pois tem de se preocupar com a saúde mental do idoso e a sua própria. 

Não é fácil encontrar este tipo de equilíbrio, até mesmo pelo facto de termos pouco tempo e estarmos constantemente ocupados com a pessoa a cuidar. No entanto, sentirmo-nos bem psicologicamente é fundamental para uma boa convivência numa etapa de vida tão difícil, quer para o cuidador, quer para o cuidado.

O Sono

O sono no idoso é um assunto delicado, pois pode oscilar entre uma permanente sonolência, ou uma total falta dele. Isto pode ser um problema para o cuidador, pois, se por um lado o excesso de sono pode levantar preocupações, a completa ausência dele pode ser extenuante, caso a pessoa queria circular pela casa ou chame constantemente, por exemplo.

Mesmo quando dormimos a noite inteira, pode haver situações em que o sono não é raparador e isso afecta o nosso dia. Esta situação é mais frequente à medida que a idade avança e pode deixar o idoso menos disposto, mais cansado ou até mesmo irritável. Por esse motivo, é importante promover momentos relaxantes e de pausa, especialmente quando se aproxima a hora de deitar. Estes podem ser determinantes para o descanso de ambos. 

A higiene

A hora da higiene suscita sempre muitas dúvidas e receios. Maioria das vezes, não tem a ver com o acto em si, mas com algums constrangimentos de parte a parte. De facto, se a pessoa está lúcida pode até sentir-se humilhada por necessitar que outra pessoa lhe dê banho ou troque uma fralda.

A melhor forma de lidar com isto é agir com naturalidade e tentar que a pessoa usufrua do maior conforto possível. Em momento algum, o idoso deve ser chamado à atenção por ter urinado na cama, ou por precisar de fraldas. Mais uma vez, é um exercício de empatia: como se sentiria se fosse consigo?

É importante também lembrar, especialmente para as pessoas cuja profissão é cuidar de idosos, que um idoso não são todos os idosos. Cada pessoa tem a sua personalidade e direito à sua individualização. Pessoas diferentes têm necessidades diferentes e é uma obrigação do cuidador tentar detectá-las.

O Banho

O banho é um momento delicado que enche o idoso de constrangimentos. O ideal é o mesmo ser dado num local calmo (onde o idoso não se sinta exposto), deve ser rápido (tanto quanto possível) e deve ser proporcionado ao idoso alguma sensação de autonomia, por exemplo, dar-lhe a esponja para se ensaboar se tiver condições para tal.

Outra coisa a ter em conta é que muitos idosos sentem desconforto e mesmo dor ao toque. Seja delicado e tenha paciência. 

Cuidados de pele

A pele dos idosos tende a tornar-se mais seca e por isso, fere com maior facilidade. Uma boa hidratação é fundamental para evitar feridas, especialmente em pessoas acamadas - as famosas escaras, dolorosas e difíceis de curar.

Além do cuidado directo com a pele - mantê-la limpa e hidratada - deve haver especial cuidado com a roupa de cama e de vestir. Escolha peças confortáveis, de tecidos naturais que não causem fricção no contacto com a pele.

Alimentação

Tal como a higiene, a alimentação é um tema fundamental e exige certos cuidados.

A maioria das pessoas mais velhas precisa de uma dieta especifíca ou pelo menos certos cuidados na alimentação. Doenças como a diabetes, colesterol ou hipertensão precisam da ajuda da alimentação para serem controladas. Para além disso, com o passar do tempo podem surgir alterações do palato e intolerâncias alimentares, que nem sempre são óbvias e às quais devemos estar atentos.  

É ainda preciso um extremo cuidado no próprio momento de alimentar. Oferecer porções pequenas, mais facilmente digeríveis e mais vezes ao dia, bem como garantir que a pessoa não se engasga, especialmente se tiver se ser alimentada deitada ou quase. Para os idosos acamados é ainda importante oferecer aliemntos ricos em fibra. A falta de movimento pode provocar obstipação e a fibra ajuda a evitá-la, dando mais conforto à pessoa.

Conforto e Vida Social

Ter conforto e bem-estar vai muito mais além das necessidades básicas. Entretenimento e possibilidades de convívio e contacto social são também muito importantes. Procure proporcionar actividades, dentro do gosto pessoal da pessoa que não só estimulem o cérebro (e se possível o físico), como também a deixem entretida e de bom humor. 

Todas as actividades que estimulem a socialização e o contacto humano são bem-vindas.

Não somos sempre fofinhos

A imagem do idoso como o avôzinho ou avózinha queridos e fofos que nos enchem de amor e carinho nem sempre é a realidade do cuidador.

Há muitos motivos para tal acontecer e alguns estão directamente relacionados com a personalidade da pessoa. Os idosos são muitas vezes desprovidos de vontades, personalidade, ou maneira de ser pelas pessoas à sua volta. Mas isto não faz sentido. Cada um continua a ter a sua própria maneira de ser e forma de estar, com tudo o que isso implica.

Outro momento que muitos não esperam é quando em caso de demência ou patologia do foro mental, o idoso se torna agressivo e antipático, muitas vezes recusando cuidados. A revolta pela situação em que se encontram também é frequente.

Em qualquer dos casos, o cuidador não precisa de julgamentos, precisa de ajuda. Lembre-se também que não tem de fazer tudo sozinho e pode recorrer a ajuda de profissionais, sempre que sentir essa necessidade.

Diante de reações desagradáveis, o ideal é sempre manter a calma e tomar uma atitude conciliatória em vez de confrontatória. Tente negociar com a pessoa e terá a vida de ambos mais facilitada.

O desgaste do cuidador

O cuidador do idoso nem sempre é valorizado como devia, seja pelo governo e pela sociedade, seja pelos mais próximos. Muita gente, ainda encara o cuidar de pessoa idosa como dar comer ou ajudar no banho e esquecem todo um lado emocional e de esforço físico envolvido. 

Apesar das dificuldades do ponto de vista físico, como a força necessária para levantar a pessoa ou as poucas horas de sono, foquemo-nos no lado emocional.

O cuidador está sob um stress muito grande e considerável exaustão. Isto leva muitas vezes a um processo de isolamento social do qual resulta mais cansaço e frustração - muitas vezes, a única pessoa com quem tem interacções significativas é o idoso. 

É preciso proporcionar ao cuidador momentos de descanso e lazer, para que o desgaste emocional não se torne insuportável. 

O derradeiro desafio

À medida que a idade avança várias condições afectam as nossas capacidades físicas e psíquicas. As mesmas tornam a pessoa idosa mais susceptível a acidentes, quedas e outras situações de risco. 

A figura do cuidador é vital. No entanto, pode ser extremamente difícil e desgastante para ambos. Para uma eficaz relação entre cuidador e cuidado é preciso haver respeito mútuo. O idoso é uma pessoa com vontade própria e deve ser respeitada como tal. Há que respeitar e honrar as suas escolhas sempre que possível - sempre que não coloquem o próprio, ou terceiros, em risco. 

domingo, 1 de outubro de 2017

Aceitar a Doença Crónica

Os avanços cada vez maiores da medicina parecem trazer para o nosso quotidiano mais e mais diagnósticos de doenças crónicas. O conhecimento é uma benção para a qualidade de vida, mas para muitos doentes torna-se um pesadelo.

Nem toda a gente está preparada para o diagnóstico quando ele chega e, na maioria dos casos, é uma sensação devastadora. “Para o resto da vida” é um tempo muito longo e os medicamentos e alterações diárias nem sempre são bem aceites.

Há problemas legais que podem tornar-se um entrave ao tratamento, como a dificuldade em conseguir isenção das taxas moderadoras, o acesso limitado a especialistas ou até mesmo, a capacidade de transporte até à consulta, mas por detrás dos números, estão seres humanos, perdidos e confusos, que precisam desesperadamente de aprender como aceitar e lidar com esse estado que é a doença.

Em Portugal o acompanhamento ao doente é maioritamente efectuado através das Unidades de Saúde Familiares e acompanhamento de especialistas a nível hospitalar. No entanto, quando falamos de apoio à gestão do regime terapêutico, a resposta do SNS é francamente insuficiente, ficando a família com grande parte do papel que pertende ao profissional de saúde.


Estatísticas

As estatísticas referentes à Doença Crónica em Portugal não são de todo favoráveis. Estima-se que 40 a 45% das doenças sinalizadas no nosso país, sejam doenças crónicas incapacitantes e segundo o Plano Nacional de Saúde, este número tem tendência para aumentar de forma exponencial.

Em 2005, 86% das mortes ocorridas em território europeu foram consequência de doença crónica (sendo a Diabetes detentora do número mais significativo), segundo dados da OMS e prevê-se que este número aumente. Da mesma forma, a Organização Mundial de Saúde acredita que a adopção de um estilo de vida mais saudável, que inclua exercício físico, melhores hábitos alimentares e abandono de hábitos tabágicos poderia baixar estes números em cerca de 80%. 

O primeiro profissional de saúde a lidar com o problema é o médico de família, que lida não só com a doença em si, mas que encontra em cerca de 80% dos casos, queixas do foro psicossocial, para as quais nem sempre tem capacidade de resposta.

A doença crónica é assim de uma magnitude que não pode ser ignorada, pelos problemas para a pessoa individual (doente e família) e ainda pelo impacto económico que tem em todo o mundo. A utilização de uma estratégia de prevenção, que inclua medidas dirigidas especificamente aos diferentes grupos populacionais, aumentando assim a sua taxa de potencial sucesso, é o conselho da OMS para inverter esta tendência.




A doença Crónica e a Família

A Organização Mundial de Saúde define as doenças crónicas como “Doenças que têm uma ou mais das seguintes características: são permanentes, produzem incapacidade/deficiências residuais, são causadas por alterações patológicas irreversíveis, exigem uma formação especial do doente para a reabilitação, ou podem exigir longos períodos de supervisão, observação ou cuidados.”

No entanto, por detrás das definições estão seres humanos e um dos factores que mais afecta o doente e a sua família é a percepção de vulnerabilidade. De um momento para o outro, estas pessoas vêem-se perante um novo cenário, desconhecido e muitas vezes assustador e durante algum tempo, tudo gira em volta da doença, seja numa tentativa de controlar e tratar, seja através dos esforços feitos para ignorá-la.



Eu não estou doente, eu sou doente

A percepção que o doente, bem como a sua família tem do problema é fundamental para o prognóstico. É importante que a pessoa aceite e compreenda o que se passa com ela, que lhe dê o significado que realmente tem (sem ignorar o problema, nem torná-lo o centro da sua vida) e que tenha suporte da família e amigos próximos para que possa lidar com a doença da melhor forma possível.



Aumento da Esperança Média de Vida ou Explosão de doenças crónicas?

O aumento da esperança média de vida parece ter uma correlação directa com o aumento das doenças crónicas, mas não só. A doença crónica, como bem sabemos, atinge pessoas de variadas idades e estima-se que esteja mais relacionada com o estilo de vida stressante e sedentário, tão comum nas sociedades modernas.

Hoje em dia, uma pessoa com mais de 65 anos usa, em média, 5 medicamentos em simultâneo para controlo de condições crónicas de saúde. É sabido que quão mais complexo fôr o tratamento e o maior número de medicamentos, menor a adesão aos mesmos por parte dos doentes.




Conhecer, compreender, aceitar

Nem todas as doenças crónicas são terrivelmente incapacitantes, mas a noção de nunca mais, de anormalidade persegue os doentes que tentam desesperadamente encontrar um novo caminho ou direcção, do qual a doença vai sempre fazer parte. De acordo com uma tese de doutoramento da Universidade Católica do Porto, após o diagnóstico da doença crónica, começam a emegir os sentimentos de medo e falta de esperança. 

As tarefas rotineiras passam a ser grandes dificuldades e o percurso normal de vida (estudos, trabalho) é alterado, muitas vezes, radicalmente.

A forma como é vivido o momento de transição entre a saúde e a doença é fundamental para o desenvolvimento da mesma e prognósticos sobre o futuro. É preciso investir em profissionais, que para além do conhecimento necessário para apoiar o doente, demonstrem sensibilidade para compreender a pessoa que têm à sua frente e a sua capacidade de resiliência, bem como as suas vulnerabilidades.

O suporte familiar e o contexto sociocultural em que o paciente está inserido é de vital importância para o sucesso ou insucesso do processo. A ausência de suporte familiar, especialmente se associada a um contexto de pobreza, é um dos maiores factores de vulnerabilidade do doente crónico. Pelo contrário, uma família estruturante é, à partida, um dos melhores prognósticos que podemos encontrar.

Os profissionais de saúde e o doente que acompanham têm expectativas e objectivos diferentes, pois para o doente, o controlo da doença é apenas uma parte de tudo o que este tem de enfrentar. Ele precisa fazê-lo, enquanto segue com o seu plano de vida, o que muitas vezes, na ânsia de melhorar a parte clínica é desvalorizado pelos profissionais, tornando-se um forte entrave à aceitação da doença por parte do doente e à vivência desta transição de forma mais tranquila.


Desmistificar crenças

Muito do trabalho a realizar pelos profissionais de saúde está relacionado com a desmistificação das crenças associadas às doenças crónicas, crenças essas, que prejudicam a aceitação e o tratamento, especialmente na fase de transição.

Após um diagnóstico de doença crónica, os doentes passam por uma fase de transição, onde interiorizam a sua nova realidade e aprendem a viver com a doença e as suas limitações, bem como os novos cuidados impostos pela mesma. Esta transição é tanto mais fácil quanto menor o número de crenças desfavoráveis associadas ao problema pelo paciente e sua família.

O medo, a discriminação e a gravidade percebida da doença estão directamente relacionados, tanto com as crenças que o sujeito possa ter, como com a facilidade ou dificuldade com que esta transição é vivida.


Gerir a doença, gerir a própria vida

Todo o profissional de saúde sabe que apesar de todos os esforços algumas pessoas não tomarão o devido cuidado consigo mesmas e não seguirão os seus conselhos. Isto levanta algumas questões de abordagem ao paciente, mas, em primeira análise, o que faz com que algumas pessoas não cuidem de si mesmas?

A noção de auto-cuidado significa coisas diferentes para pessoas diferentes e difere consoante a capacidade de adaptação e resiliência, bem como as expectativas para o futuro do sujeito em causa.

A informação é fundamental para que a pessoa cuide da sua saúde, tendo em conta o benefício a esse comportamento associado. A confiança na sua capacidade é também um factor determinante, o paciente precisa acreditar que é capaz de cuidar de si mesmo e que daí tirará algum benefício.


Aceitarmo-nos a nós e aos outros

É urgente protecção jurídica. O doente crónico precisa ser reconhecido e apoiado. O acesso a medicamentos e terapias deve ser uma prioridade, mas não esqueçamos outros tipo de materiais, que não sendo considerados medicação são muitas vezes negligenciados, mas são necessários para uma vida digna e independente de muitos dos nossos doentes.

Os profissionais de saúde são fundamentais na fase de transição e aceitação da doença. É preciso que estes tenham a consciência e a sensibilidade para compreender que para o doente o foco está na vivência da nossa condição, enquanto tentam manter a continuidade da vida que tinham antes. Ser capaz de controlar a doença e tratar de si mesmo, aplicar o regime terâpeutico adequado e muitas vezes complexo, principal preocupação do profissional de saúde, tem de ser incorporado nas vivências e expectativas do paciente, ajudando-o a lidar com esta nova vida.

Desta forma, o Plano Nacional de Saúde adopta uma postura de desenvolvimento de competências no doente, focado na informação ao mesmo, que passa não só pela informação prática relacionada com a doença e terapêutica, mas também pelo conhecimento dos seus direitos, possibilidade de escolha, procedimento de segurança e ainda, como e onde deve fazer as suas reclamações se sentir necessidade disso.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Alívio da Morte - A reconstrução da Vida



O apoio a doentes com doenças terminais é fundamental, mas não podemos descurar os seus familiares mais próximos, durante e após todo o processo da doença. A morte chega lentamente, com aviso prévio, mas ainda assim, tão de surpresa. Os meses de sofrimento e desespero caem de repente sobre o vazio da ausência e isso é algo com o qual ninguém está preparado para lidar.

Muitos são os sentimentos que nos assolam e a culpa permanece com insistência na mente dos que ficam, pelo que não fizeram e poderia ter feito, pelo que fizeram que poderiam ter feito de maneira diferente, pelo alívio que a morte lhes trouxe. A dor e o alívio misturam-se quando as palavras há tanto esperadas chegam, muitas vezes, durante uma visita ao hospital.

Acabou. Respira fundo.

Em seguida a este “acabou”, vêm os sentimentos negativos e a sensação de abandono, como se não tivessem feito o suficiente, sofrido o suficiente. Acabou, mas não pode acabar. Alguém morreu, não posso simplesmente achar que é um alívio, porque algo acabou.

São estes os pensamentos dos que vêem os seus entes queridos partir após tanto tempo de sofrimento e são estes os pensamentos e sentimentos que temos de trabalhar e modificar.

O fim da vida foi um alívio e não há mal nenhum nisso.




O familiar Cuidador

A doença terminal é algo normalmente alongado no tempo e com várias fases e altos e baixos. Períodos no hospital, períodos em casa, períodos de relativa independência e força e períodos de total dependência, depressão e desespero.

O familiar cuidador é aquele que se torna maioritariamente responsável pelo doente terminal e é, naturalmente, quem mais sofre com todos os altos e baixos. É a pessoa que, na grande maioria das vezes, abdica de tudo na sua vida para cuidar da pessoa doente.

A sua vida é subitamente interrompida, todos os eus projectos e desejos adiados e a incerteza passa a ser parte do dia a dia. Os seus pensamentos andam à volta do relativo bem-estar de uma pessoa pela qual nada há a fazer e pela dúvida entre o continuar a lutar por ela, ou baixar os braços.

Após a morte, o sentimento de vazio é imenso e a falta de apoio enorme. Acabou. Pensa o familiar cuidador e também pensam as pessoas à sua volta. Acabou. Agora é o luto, agora vamos voltar ao normal. Será?

De que forma e até que ponto, esta pessoa realmente volta ao normal? É tão bom poder seguir com a vida, com os projectos, com os sonhos, mas muitas vezes sem aquela pessoa, estes não têm grande significado. E é nesta fase, que a pessoa se vê forçada a encarar o facto que nada mais será normal.



Perfil do Familiar Cuidador

O familiar cuidador tem, naturalmente, uma grande proximidade ao doente, uma mãe, uma filha, esposa, esposo… Alguém que terá de aprender a viver novamente antes de poder seguir com a sua vida. Muitas vezes, terá de dar um novo significado a esta vida…

Este familiar lidou durante meses com os sentimentos e dificuldades do doente, dele próprio e da sua família e nesta fase, o alívio esperado não chegou, pois a dor é imensa e continua a servir de enfermeiro(a) para os restantes familiares que tentam ultrapassar o luto. 

Esta pessoa é, normalmente, percepcionada como forte, é a pessoa que se chega à frente, que tem a coragem necessária para tomar decisões (sempre tão difíceis), de tomar as rédeas da situação e faz o que é preciso fazer. Muitas vezes, a pessoa já tinha este perfil anteriormente, porém, muitas outras tem de aprender a agir desta forma, pois alguém tem de o fazer. E na esmagadora maioria das vezes, não foi uma escolha sua, não há mais ninguém…


O Apoio Psicológico

Não há a menor dúvida de que o familiar cuidador precisa de um apoio especializado e felizmente, começa a surgir cada vez mais esse apoio em contexto de serviço nacional de saúde. No entanto, a falta de profissionais, a falta de tempo ou até mesmo de dinheiro continuam a ser uma realidade que impede o apoio adequado a estas pessoas.

Há tempo de espera pela consulta de apoio psicológico e muitas vezes, a pessoa não pode ir, porque o doente terminal tem exames, está pior, foi internado, precisou de algo, ou simplesmente, não há mais ninguém que possa, naquele dia e àquela hora, ficar com ele… Marcar uma nova consulta é uma aventura digna de enlouquecer.

Assim, o atendimento a nível particular poderá ser uma opção, mas a falta de tempo aqui é batida pelas dificuldades financeiras. Os cuidados e necessidades do doente terminal são grandes e todo o dinheiro deve ser meticulosamente contado para tal fim. O cuidador fica para depois.

E é assim que esta pessoa vai vivendo e como ela acaba por acreditar que é o mais correcto, que os sentimentos dela têm de ficar para depois, que as dificuldades dela não são assim tão importantes, que ela está em segundo lugar.

A morte afinal não traz o alívio desejado mas uma sensação de vazio e da falta do seu próprio espaço, na sua própria vida.